Quando a inteligência artificial entra na disputa eleitoral de 2026

Carla Rodrigues 04 de setembro de 2026

As eleições brasileiras de 2026 acontecerão em um ambiente digital marcado pela presença cada vez maior de ferramentas de inteligência artificial capazes de criar, modificar e distribuir imagens, vídeos, áudios e textos sintéticos. Se, em 2024, o uso político dessas tecnologias ainda aparecia de maneira mais experimental, o cenário que se desenha para 2026 é de maior incorporação da IA à comunicação política e às disputas em torno da informação.

O monitoramento realizado pelo Observatório IA nas Eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab, ajuda a dimensionar essa transformação. Entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram identificados 137 casos de uso de IA relacionados a assuntos políticos ou à recriação de figuras políticas nas redes sociais, uma média de 1,5 caso por dia e um aumento de 50% em relação à média diária registrada no ano anterior. Ao menos 34% das publicações foram feitas por agentes políticos, entre políticos e partidos.

Mais do que o volume, chama atenção a forma como essas tecnologias vêm sendo utilizadas. Conteúdos sintéticos foram empregados tanto para produzir sátiras e críticas quanto para disseminar desinformação, atacar reputações, criar narrativas falsas e produzir conteúdos de apoio a políticos. O levantamento identificou, por exemplo, vídeos e áudios que simulavam declarações de figuras públicas, falsas pesquisas eleitorais e imagens manipuladas de políticos. Em alguns casos, a IA foi utilizada para criar identidades fictícias e simular apoio político.

Esse cenário coloca um desafio adicional para a integridade do processo eleitoral: nem sempre será evidente para o eleitor quando um conteúdo foi produzido ou manipulado artificialmente. À medida que ferramentas de inteligência artificial tornam a criação de imagens, vídeos, áudios e textos sintéticos mais acessível e realista, aumenta também a dificuldade de distinguir conteúdos autênticos daqueles que foram fabricados ou modificados. 

Em um contexto eleitoral, essa dificuldade pode ter consequências relevantes, especialmente quando conteúdos sintéticos são utilizados para representar candidatos, simular acontecimentos, atribuir declarações que não foram feitas ou construir narrativas capazes de influenciar a percepção do público. O problema, portanto, não está apenas na possibilidade de produzir conteúdos enganosos, mas na crescente dificuldade de reconhecê-los como tais. A transparência sobre o uso de inteligência artificial passa a ser, nesse contexto, um elemento importante para que o eleitor possa avaliar criticamente a informação que recebe e tomar decisões de forma mais consciente.

A questão se torna ainda mais relevante quando conteúdos falsos assumem a aparência de acontecimentos reais. O Observatório identificou, por exemplo, vídeos gerados por IA que simulavam reportagens jornalísticas e apresentavam falsas informações sobre pesquisas eleitorais, além de conteúdos que criavam acontecimentos que nunca ocorreram envolvendo figuras políticas e integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial também passa a ocupar um lugar mais direto na própria experiência de informação política. Chatbots já são utilizados como ferramentas para buscar informações sobre candidatos, propostas e temas de interesse público. Em testes realizados pelo Observatório com cinco chatbots disponíveis no Brasil, todas as ferramentas identificaram e apresentaram perfis de pré-candidatos à Presidência. Quatro delas também ranquearam propostas em diferentes áreas, enquanto quatro recomendaram candidatos de acordo com perfis específicos de eleitores.

É nesse contexto que as novas regras do Tribunal Superior Eleitoral ganham importância. Para as eleições de 2026, a Resolução nº 23.755/2026, que atualizou a regulamentação da propaganda eleitoral, estabeleceu regras específicas para provedores que oferecem sistemas de inteligência artificial ou tecnologia equivalente. Durante o período de propaganda eleitoral, esses provedores não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, partidos ou campanhas. A norma também proíbe respostas automatizadas que emitam opinião, indiquem preferência eleitoral, recomendem voto ou promovam favorecimento ou desfavorecimento político-eleitoral.

A regulamentação também estabelece obrigações relacionadas à sinalização de conteúdos sintéticos. De acordo com o Observatório, o artigo 9º-B da Resolução nº 23.755/2026 determina que conteúdos multimídia produzidos ou manipulados por IA utilizados em propaganda política sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível, com indicação de que o material foi fabricado ou manipulado e da tecnologia utilizada.

A existência da regra, entretanto, não encerra o debate. O monitoramento realizado pelo Observatório mostra justamente a distância que pode existir entre a previsão normativa e a circulação efetiva dos conteúdos nas plataformas. A presença de publicações sintéticas sem rotulagem, inclusive entre conteúdos publicados por agentes políticos, levanta questões sobre transparência, responsabilização e capacidade de fiscalização durante o período eleitoral.

Há ainda uma dimensão relacionada à violência política e de gênero. Entre os casos identificados pelo Observatório, foram encontrados conteúdos que utilizaram IA para manipular imagens de mulheres na política, produzir deepfakes de caráter sexual ou criar conteúdos destinados a atacar sua reputação. A sofisticação dessas ferramentas pode potencializar formas já existentes de violência política, especialmente quando conteúdos manipulados são produzidos para parecer autênticos e podem continuar circulando mesmo depois de removidos.

Assim, o debate sobre IA nas eleições não se limita à pergunta sobre o que é verdadeiro ou falso. Envolve também quem produz determinado conteúdo, como ele é identificado, quais mecanismos de distribuição são utilizados, quais critérios orientam sistemas automatizados e de que maneira conteúdos sintéticos podem influenciar percepções, reputações e escolhas políticas.

É nesse cenário que o Observatório IA nas Eleições realiza sua oficina na Data Privacy Global Conference 2026, que acontece nos dias 7 e 8 de dezembro de 2026, no campus Álvaro Alvim da ESPM, em São Paulo. Buscamos discutir como a inteligência artificial vem transformando a comunicação e quais desafios seu uso apresenta para a integridade da informação e para a capacidade de escolha do eleitor e para democracia nas eleições de 2026.

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